R$ 8,068 milhões. Esse é o valor que, segundo denúncia da vereadora Enilda Mendonça, foi pago à empresa Atlântico entre novembro de 2025 e julho de 2026, em repasses relacionados a um acordo judicial sobre prejuízos da pandemia envolvendo as empresas São Miguel e Viametro.
Há um detalhe que não pode ser ignorado: *a Atlântico começou a operar em Ilhéus apenas em junho de 2025, anos depois do período mais crítico da pandemia*. Isso, por si só, não comprova irregularidade, mas torna indispensável esclarecer qual foi o fundamento jurídico para os pagamentos, quais obrigações foram assumidas e por que essa empresa recebeu os recursos.
Estamos falando de milhões de reais do dinheiro público. Portanto, não basta justificar os pagamentos com a existência de um acordo judicial. É preciso tornar claros os critérios adotados, os beneficiários, a responsabilidade de cada envolvido e os resultados efetivamente entregues à população.
E agora a situação ganha um elemento ainda mais preocupante: a mesma empresa tem previsão de encerrar sua operação em Ilhéus no final deste mês. A empresa vai embora, mas as perguntas continuam. E os milhões pagos, como ficam?
O encerramento das atividades vai significar também o encerramento das cobranças? Quem vai responder pelos pagamentos realizados? A Prefeitura apresentará todos os esclarecimentos necessários? Os órgãos de controle já examinaram os fatos e chegaram a alguma conclusão?
Não se pode confundir o fim de uma operação com o fim das responsabilidades. Se existem dúvidas sobre a destinação dos recursos públicos, elas precisam ser esclarecidas, independentemente de a empresa continuar ou não prestando o serviço. E, caso sejam comprovadas irregularidades, os responsáveis devem responder na forma da lei.
Também é necessário perguntar: o que a população de Ilhéus recebeu em contrapartida a tantos recursos? O transporte público apresentou melhorias compatíveis com os valores envolvidos? Houve resultados concretos? Ou a sociedade continuará sem respostas sobre decisões que afetam diretamente o seu dinheiro e um serviço essencial?
A Prefeitura precisa se manifestar com documentos, números e explicações objetivas. Os órgãos de fiscalização precisam informar quais providências foram adotadas. E a Câmara Municipal, no exercício de sua função fiscalizadora, deve acompanhar o caso e cobrar respostas conclusivas.
Ilhéus não pode aceitar que milhões de reais sejam pagos, uma empresa encerre suas atividades e tudo termine sem que a sociedade saiba exatamente o que aconteceu.
Não se trata de condenar antecipadamente a empresa ou qualquer agente público. Trata-se de exigir transparência, apuração e responsabilidade.
A pergunta que fica é inevitável: quando chegar o fim do mês, a Atlântico encerrará sua operação, mas quem ficará para responder por tudo isso?
Porque, se o serviço termina, os pagamentos já foram realizados e as dúvidas permanecem, a população tem todo o direito de cobrar: afinal, até onde vai a responsabilidade da gestão pública? Ou vamos assistir a mais um caso em que o dinheiro público está no centro da discussão, mas as respostas e as responsabilidades nunca chegam?
Manoelito Puentes
DRT 6455
